Ilustração de coleta seletiva urbana

Na terça-feira de manhã, a Rua do Hospício, no Bairro do Recife, tinha o cheiro de sempre: maré baixa misturada com lixo que deveria ter saído na segunda. Dona Neuza, 67 anos, mora no local há quarenta anos e disse que "nunca precisou de calendário" — até agora. A prefeitura colou aviso no poste: orgânico às quartas, reciclável às sextas, rejeito às segundas.

Esse esquema é o mesmo adotado em bairros de Salvador e Fortaleza que entraram no programa regional de padronização da coleta seletiva, acordo firmado entre as três capitais em março deste ano. O objetivo declarado é facilitar a comunicação com moradores, reduzir mistura de resíduos e melhorar indicadores de destinação correta enviados ao Ministério do Meio Ambiente.

A lógica por trás do calendário único

Segundo técnicos da Compesa, em Recife, o modelo anterior variava de bairro para bairro — e até de quadra para quadra em áreas com coleta porta a porta irregular. Caminhões passavam em dias diferentes sem padrão claro, o que gerava sacolas na rua fora de hora e aumentava custo de coleta extraordinária.

Com o calendário unificado, a prefeitura concentra rotas: um dia para materiais secos (papel, plástico, metal, vidro), outro para orgânicos (restos de comida, poda de jardim) e um terceiro para o que não é reciclável. A mudança atinge inicialmente 42 bairros de Recife, 38 de Salvador e 35 de Fortaleza, com expansão prevista até outubro.

O que os moradores dizem

Em entrevistas em frente a mercados e praças, a reação foi mista. Quem já separava lixo em casa elogiou a clareza — "finalmente um papel que cabe na carteira", disse Cláudio, professor aposentado em Salvador. Quem nunca aderiu à seletiva reclamou da falta de campanha porta a porta: "Colocaram o papel no poste e acham que resolveu", comentou Fátima, diarista em Fortaleza.

Outro ponto recorrente: o tamanho do lixo orgânico no calor do Nordeste. Restos de comida em sacola fechada por dois dias, entre uma coleta e outra, atrai insetos e odor. Alguns condomínios pediram coleta de orgânico em dias alternados, mas a prefeitura de Recife respondeu que exceções quebram a lógica da rota.

Calendário bonito no papel não funciona se o caminhão atrasar ou se o morador não tiver onde guardar o orgânico sem sujar a calçada.

Catadores e cooperativas

Cooperativas de catadores acompanharam as mudanças com cautela. Em Fortaleza, a Coocatras participou de reunião com a secretaria de Urbanismo e Meio Ambiente e pediu que materiais recicláveis continuem sendo entregues nos ecopontos nos dias entre a coleta porta a porta — muitas famílias dependem dessa renda complementar.

Em Salvador, uma cooperativa no Subúrbio Ferroviário relatou queda temporária de volume no primeiro mês do novo calendário, recuperada depois que moradores entenderam que podiam deixar papelão e garrafas no ecoponto fixo de segunda a sábado.

Três cidades, desafios parecidos

Apesar do calendário igual, cada capital enfrenta obstáculo distinto. Recife lida com ruas estreitas no centro histórico, onde caminhão grande nem sempre passa no horário marcado. Salvador tem morros com acesso difícil, e a coleta em algumas comunidades ainda é feita por carroça em dias negociados localmente. Fortaleza expandiu rápido para bairros novos na periferia, onde a infraestrutura de contentores ainda não chegou.

As três prefeituras instalaram central de telefone e canal no WhatsApp para dúvidas sobre o calendário. Em Recife, o número recebeu mais de 3.200 chamadas na primeira semana — a maior parte perguntando "que dia é hoje" no sentido literal do lixo.

Perspectiva

Especialistas em saneamento urbano avaliam que padronizar é passo necessário, mas insuficiente. Sem fiscalização leve, educação contínua e alternativa para orgânico em dias quentes, o calendário vira mais um documento na parede. As prefeituras prometem avaliação em agosto com dados de tonelagem separada e reclamações por bairro.

Voltaremos às três cidades no fim do inverno nordestino para medir se a rotina dos moradores acompanhou a planilha — ou se sacolas continuarão aparecendo na calçada no dia errado.