Ilustração de transporte público noturno em São Paulo

Na sexta-feira passada, por volta das 23h, a estação Sé estava mais cheia do que o habitual para um fim de semana. Não era jogo nem show — era gente voltando do trabalho. Garçons, enfermeiras, operadores de limpeza, seguranças de shopping. O tipo de passageiro que durante anos ouviu a mesma mensagem nos alto-falantes: "Último trem da Linha 1-Azul em direção a Jabaquara".

A partir deste mês, essa frase ganhou um adiamento de duas horas nos sábados e domingos. O Metrô de São Paulo e a CPTM anunciaram operação estendida até 0h nas Linhas 1-Azul e 2-Verde, com trens a cada oito minutos no trecho central. A medida, segundo a concessionária, atende pedidos de comerciantes do centro e de sindicatos de categorias que trabalham em turnos.

Quem usa o metrô depois das dez

Conversamos com dezoito pessoas na estação Sé e na Luz entre sexta e domingo. A maioria trabalha em serviços — hospital, bares da região da República, lojas de conveniência. Quase todas disseram que o ônibus noturno existe, mas é irregular: "Às vezes passa, às vezes não", resumiu André, 34 anos, que limpa escritórios na Paulista e mora em Santo Amaro.

Com o trem até meia-noite, André calcula economizar cerca de R$ 80 por mês em aplicativos de transporte. Não é pouco para quem ganha pouco acima do salário mínimo. Ele também mencionou algo que apareceu em outras entrevistas: a sensação de segurança. "Ônibus vazio à noite é outra história", disse.

O comércio da região central

Na Rua Xavier de Toledo, donos de bares e lanchonetes comemoraram o anúncio. Para eles, funcionários que conseguem voltar de metrô tendem a aceitar turnos mais longos — e clientes que saem mais tarde também encontram transporte. A Associação do Comércio do Centro de São Paulo divulgou nota favorável, pedindo que a medida seja avaliada para feriados prolongados.

Nem tudo é consenso. Representantes de moradores de bairros periféricos lembram que a extensão cobre só duas linhas e só parte do fim de semana. Quem mora em Itaquera, Rio Grande da Serra ou em cidades da Grande São Paulo atendidas por outras linhas não sente diferença. "É um passo, mas o mapa ainda é desigual", avaliou a coordenadora de mobilidade de uma ONG que acompanha transporte público na região metropolitana.

O metrô até meia-noite não resolve a mobilidade noturna de toda a metrópole — mas muda o relógio de milhares de trabalhadores que antes planejavam a semana em torno do último trem das 22h.

Integração tarifária e bilhete único

A novidade veio acompanhada de ajuste na integração com trechos da CPTM nos finais de semana. Passageiros que desembarcam em estações de baldeação — como Brás, Luz e Tamanduateí — podem usar o Bilhete Único com a mesma tarifa de integração vigente nos dias úteis, sem cobrança extra pelo horário estendido. A secretaria municipal de Mobilidade publicou tabela atualizada no site, mas vários entrevistados disseram que só souberam da mudança pelo grupo de WhatsApp do trabalho.

Comunicação, aliás, é um ponto fraco recorrente. O painel digital da estação Ana Rosa ainda exibia horário antigo na quarta-feira, dois dias após o início da operação estendida. Funcionários da linha disseram que a atualização dos sistemas estava em andamento.

O que vem depois

O Metrô informou que a extensão será monitorada por noventa dias. Indicadores incluem volume de passageiros após 22h, custo operacional e reclamações. Se os números forem considerados sustentáveis, a concessionária estuda ampliar para a Linha 3-Vermelha e para sextas-feiras.

Para quem vive a cidade de madrugada, qualquer ampliação é bem-vinda — mas a experiência de São Paulo mostra que promessa de horário estendido já apareceu em outros governos sem se consolidar. Desta vez, a diferença pode estar na pressão de setores que voltaram a funcionar em turno completo depois da pandemia e não querem perder mão de obra por falta de transporte.

Seguiremos acompanhando as estações nos próximos fins de semana e atualizaremos esta reportagem se houver mudança no intervalo entre trens ou no calendário de operação.